Quarta-feira, 23 de Julho de 2008

Elena Castellanos

Hoje, voltou a chegar-me às mãos um texto da artista Elena Castellanos. É pintora e escritora. Confesso que não conheço a sua escrita, mas a pintura agarra-me pelas entranhas. Abusa das cores fortes da América Latina e, quando pinta os Homens, fá-lo com veemência e com muito sangue na guelra. É uma arte que se integra e que nos integra na vida. É transversal e remete para muitas coisas que nos são conhecidas: músicas fortes quase choradas, esculturas quase arquitecturais, poesia que constrói… Gostava de poder ver uma exposição com quadros dela postos ao longo de longas paredes brancas, como há uns tempos vi uma de gravuras de Dali no Porto…
Enquanto esse dia não chega, ponho Chavella Vargas cantando La llorona, procuro na boca o sabor forte dum vinho bebido com amigos e demoro-me nas “telas” que vou encontrando na net…

Aqui fica o texto:


El arte siempre exige sus victimas, gota a gota, dia a dia, es impossible escapar de sus juegos. Toda persona que experimenta su amor no puede escapar a sus encantos. No siempre es un juego, a veces es una religion muy antigua, tan lejana, que solo en sueños podemos acercarnos a ella. Apesar de esto, existe un lazo de acerdamiento, que tan solo el artista conoce. Un camino, difícil, largo, tan extenso como la vida. En el arte nada se empieza, todo se sigue; es decir no existe un punto de partida, un comienzo, tanpoco existe un fin, no se llega a ninguna parte. Toda finalidad es eterna, todo fin un principio. Todo se adivina y nada se sabe, esto puede parecer algo confuso, pêro no lo es para alguien com suficiente intuicion (intuicion artística). Las definiciones en el arte, por lo general, son limitadas. En toda arte hay algo que escapa a la explicacion de las palabras. En la creacion artística hay que perderse para poder encontrarse, para explicar en parte, digamos, que si nos logramos por médio de la mente, esforzandonos alcanzar una idea o ideal, una vez conquistado se convierte en un impedimiento para lograr una libertad total, desatar lazos, andar y desandar caminos es la tarea, intensa e integra que mueve a un artista a continuar su camino; Aún cuando sepa antecipadamente que toda victoria es una derrota. Mas no por esto se detiene, es tan intensa la fuerza que lo impulsa que logra passar las llamas.

Elena Castellanos



E o site: http://www.elenacastellanos.com.br/ onde podem encontrar não só este texto como fotos da artista e das suas telas…

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Facturas e Recibos...

Talvez este não seja o espaço, mas... Hoje fiz uma viagem de combóio. Cheguei à estação as 12:18 para comprar o bilhete, mas a bilheteira só reabriria às 13:30 pois das 12h às 13:30 era a hora de almoço. Às 14:30 voltei à estação e comprei o bilhete com cartão jovem. Diz-me o Sr. "Vai desejar recibo?" E eu "O quê?" "Se precisa de recibo, factura..." E eu "N......ão".

Ora duas questões para a CP:

1. Porque é que numa bilheteira com dois empregados, os dois almoçam das 12h às 13:30?

2. Será que a CP dá indicações aos seus empregados para vender bilhetes sem factura, ou seja, será que a CP, empresa pública, anda legalmente a facturar menos do que na realidade para assim fugir aos impostos?...

Mais duas questões para nós:

1. Porque é que nos serviços públicos não exigimos sempre factura? (Exijamos às empresas do Estado o rigor que elas nos exigem a nós.)

2. Será que qualquer dia a gente paga menos impostos se não exigir o recibo quando pagar o IRS? (Isto assim é que era lindo!!!)

SÓ LAMENTO NÃO TER PEDIDO O RECIBO.

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Maria-do-sim.

Todos os anos em Maio faço na loja uma montra com Nossa Senhora (às vezes também com Santa Ana). Este ano não tive oportunidade. Aqui há uns dias quando abri a loja e olhei para a montra, senti que me faltava ter-me dedicado a fazer um altar a Nossa Senhora. Vou fazê-lo aqui.
Creia-se ou não se creia, Maria é uma figura que seduz quase todo o mundo ocidental. Desfaçam-se da certeza que têm de que não nascem bebés de virgens e pensem:

Estamos nos últimos meses da era não cristã, na Galileia, mais concretamente em Nazaré – uma aldeola que em Portugal poderia corresponder a Freixo de Espada a Cintra – faz um calor intenso. Maria tem 12 anos e está prometida a José. Dentro em breve irá formalizar o casamento (a formalização não vinha só de boca, mas do acto sexual) e viver com ele. Espera-a uma vida boa, ao lado dum homem um pouco mais velho, capaz de prover sustento para a família e conhecido na pequena comunidade de Freixo de Espada a Cintra.
Então, neste dia de calor intenso, Maria está a rezar (provavelmente a recitar Salmos) e eis que lhe surge um anjo “Ave Maria, Cheia de graça, o Senhor é contigo.” Imaginam a cabeça dela “O Senhor?!?! Comigo?!?! Mas o que é isto? Este calor está a fazer-me alucinar!!!!?” E o anjo a insistir: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus” E Maria: “Jesus?!! Mas isso é o José que deve decidir!... Como é que eu o vou convencer?!”. E de repente, uma consolação imensa no coração, o impulso inevitável dos seres amados para o SIM e a coragem de se lançar numa aventura ousada e perigosa (quantas não morreram apedrejadas por aparecerem grávidas antes do casamento?): “Faça-se em mim, segundo a Vossa Vontade”.

E aqui está: Maria, a mulher que mudou o mundo.

Crendo ou não crendo, é comovente que se conte (e se acredite) que o Sim duma só mulher pôde mudar o mundo. [Jesus é filho de Deus e por isso não conta para estes números. E o facto de a Vontade inicial ser de Deus também não conta para estes números, porque Maria podia sempre ter dito NÃO]. Comove-me também que há 21 séculos atrás se pudesse ter da mulher uma visão de “criatura capaz de ultrapassar todas as dificuldades”. Se não fosse verosímil, à época, uma mulher poder mudar a vida dum homem, poder conduzi-lo, poder “safar-se” com a loucura de saber mais do que o marido e de decidir por ele (no fundo Maria também tomou uma decisão pelo casal que formaria com José sem o consultar, ao dizer sim…), nunca a história poderia ter sido contada desta forma! É verdade que José é avisado em sonhos. Mas a José ninguém lhe pergunta “Queres?... Vá lá… Diz que sim…”. José tem de aceitar tacitamente, Maria tem de se empenhar e de empenhar o seu coração, o seu corpo e a sua honra. Em José, se algo corresse mal, toda Freixo de Espada a Cintra acreditaria ou não fosse ele um homem (e) digno. Em Maria… Bom! Em Maria, ninguém acreditaria!... Pois ela era mulher. (Azares!)

Quando construo altares a Nossa Senhora e mesmo quando monto pelo Natal o Presépio, é numa Maria-mulher que penso e não numa Maria já coroada nos Céus como Rainha dos Anjos e dos Santos. A Maria-do-Sim é uma mulher cheia de coragem, que não hesita em se lançar em algo em que acredita. A Maria-do-Sim mudou o mundo como mulher, só depois se lhe construíram altares.

E nós, “Marias”, teremos coragem de ser Marias-do-sim nas nossas vidas?

EUCATÁSTROFE

Fui lá para o mês de Maio a uma conferência com o pe. Peter Stiwell sob o tema “Teologia de Tolkien”. O pe. Peter Stiwell revelou-se um óptimo conferencista, capaz de chegar a quem não sabe nada de teologia. Tentou ser tão leve que me deixou com aquela sensação com que fico quando como um – e apenas um… um mísero – quadrado de chocolate…
O tema era Tolkien e o incontornável Senhor dos anéis. Mas falou o pe. P.S. duma outra publicação que eu desconhecia – On fairy-stories – que é um ensaio em que Tolkien analisa as histórias de encantar (esta tradução de fairy-stories é livre e da minha autoria. Os termos não correspondem exactamente, mas parece-me ser mais viável do que contos de fada.) enquanto género literário. Através desse estudo entra também na definição de mito e no papel que este pode ter na reinterpretação do real. Mas o tópico que me prendeu a atenção foi a introdução dum novo termo por Tolkien: Eucatástrofe.
Sabemos que a catástrofe é o termo que designa o ou os acontecimentos que servem de clímax a uma tragédia (grega), normalmente mortes ou desastres.

(– para encontrar definições de termos literários on-line serve-nos agora um dicionário da autoria do Dr. Carlos Ceia. http://www.fcsh.unl.pt/edtl/index.htm Consultem! É óptimo! É género uma wikipédia para estudos literários com a vantagem de todos os conteúdos postados serem aferidos pela equipe do Dr. Carlos Ceia!)

Ora, com eucatástrofe – eu não sei nada de grego, mas segundo o pe. P.S. explicou eu quer dizer bem – Tolkien vem definir o oposto de catástrofe. Não parece nada de extraordinário, mas já tinham visto este conceito ser definido? Eu não e por isso fiquei maravilhada.
Para Tolkien aquilo que mais distingue as fairy-stories, enquanto género literário, é terem happy endings. Por terem um final feliz, elas oferecem no final da leitura um sentimento de consolação que é tanto maior quanto maior for a dureza das situações passadas ao longo da história. Quanto mais a narrativa se aproxima da narrativa catastrófica, maior é a consolação final quando ela se revela uma narrativa eucatastrófica. Mas, também na estrutura da narrativa eucatastrófica há indícios de que tudo se encaminha para o final feliz. No fundo, da mesma forma que na narrativa catastrófica há peripécias que antecipam o final trágico.
Parece-me extraordinária uma literatura que tenha como preocupação e como função consolar o leitor. É claro que essa função pode ser tratada de forma muito pouco densa e talvez até leviana, senão também não teríamos literatura cor-de-rosa, mas ocorrem-me autores que não terminando as suas narrativas com “e viveram felizes para sempre” conseguem consolar-nos com os seus textos, como Sophia de Mello Breyner, John le Carré, John Steinbeck ou Oscar Wilde (e estou só a pensar em livros que li desde Janeiro…).

Penso também neste momento em nós, portugueses, e na nossa vocação para a saudade e para uma visão catastrófica da vida… Faço uma declaração de voto nesta assembleia que é a nossa nação e digo que me quero mais lusófona que portuguesa e que, por isso, me comprometo, não obstante as fortes pressões político-sociais contrárias, a escrever a minha vida como uma narrativa eucatastrófica.

Sem atrasos?...

Concluo que não me serviu de muito criar um blog. Criei-o para ser organizada. Pensei que se tivesse uma leve "obrigação" de escrever passaria os textos que vou escrevendo para o computador, mas a verdade é que desde a última publicação em Abril devo ter escrito uns doze... Ponho agora mais dois que acabei de copiar (eu sou antiquada!!!! Posso ter o pc à frente mas acabo sempre por usar um papel e uma caneta!) e que datam de Maio... Para breve os outros 10?

Um abraço amigo a tod@s e não deixem de insistir, que me faz bem!

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Da emigração e doutros demónios

(ou será que com o novo acordo ortográfico passaremos a ter de escrever “demônios”?)

Há uns dias numa feliz coincidência, encontrei um antigo professor meu do Conservatório. Celebravam-se os 100 anos de Óscar Niemeyer, num congresso em Castelo Branco. No meio de arquitectos e engenheiros creio que éramos os únicos outsiders assumidos. Ele músico de formação e empresário em projecto (por falar nisso, vão visitá-lo a www.apsara.pt); eu com formação em letras e antiquária em projecto. Em comum: a horizontalidade do olhar e dos interesses. Foi giro revê-lo, agora que já pago impostos.
Depois das conferências da manhã, almoçámos numa mesa redonda entre gente da minha adolescência que cresceu bem. A certa altura, um comentário me fez congelar:
– Sabem aquelas entrevistas que são sempre iguais? – dizia o meu professor – Aquelas que só fazem perguntas sem nexo p’ra traçar o perfil dum gajo? - todos anuímos silenciosamente – …Perguntaram-me “um sonho?” e eu só respondi “Tentar não emigrar.”.
Naquela frase eu vi resumida a serpente que tenta, com a maçã dum futuro mais seguro, o talento da minha geração. De forma simples, tudo dito; expressa toda a angústia de quem não se consegue realizar neste país tão falido, tão desencantado e tão claustrofóbico para quem tem talento e vontade de trabalhar.
Quantas vezes não me imaginei já emigrante? Quantas vezes não vi já os caminhos que gostava de trilhar cá dentro abrirem-se lá fora? Quantos amigos meus não encontraram já a realização profissional no estrangeiro (às vezes vendo a emocional ficar por cá)?
Mas ao mesmo tempo, quantos não são os talentos que continuam de forma obstinada a querer Portugal? Quantos não são os bons profissionais que não amocham ao ver a incompetência ser promovida ou, por outras palavras, quantos não são os bons profissionais que continuam a produzir e a gerar riqueza mesmo vendo a sua criatividade e a sua competência serem menosprezadas?
Regozijo-me com os que ficam, com os que partem e com os que voltarão, mas nunca com os que desistem ou com os que não voltam. Não sei ainda qual destes serei eu. Por enquanto pergunto-me:

Será o sonho possível?...


Até quando?

três infâncias...

Quando eu era miúda, na sacristia da Sé de Castelo Branco havia uma tela que me roubava a concentração dos últimos ensaios antes dos concertos da miudagem do conservatório. A primeira vez que dei conta dela eu era bem pequena, não a compreendi e mesmo assim chorei [eu era tão pequena (não me lembro bem que idade teria) que fazia parte dum grupo que ia apenas abanar folhas (literalmente!!!) numas partes da obra (creio que se chamava “Folhas de Outono”)].
Era uma imagem de Jesus na cruz, quando ela estava para ser erguida. Só que Cristo era ainda menino, um bebé gordo ainda monossilábico e risonho. Segundo mais tarde me explicaram, esta é uma imagem recorrente do Barroco levado ao extremo. Até pode ser uma boa ideia artística e reveladora duma interpelação ímpar no que diz respeito à temática da crucificação de Cristo, mas continua a chocar-me, mesmo tendo já lido algumas páginas de Sade.


No outro dia deu na SicN uma daquelas reportagens que fazem perder o sono – eu mais do que perder o sono fiquei a sentir-me a maior inútil de todos os tempos – um grupo de crianças abandonadas vive por entre condutas de ar e estações do metro de Moscovo; bebem vodka para se aquecerem, snifam e fumam cola para se esquecerem das saudades dos carinhos dos pais, vivem da caridade, mas quando isso não chega recorrem aos pedófilos; à noite, simulam felicidade brincando até adormecerem. São crianças de olhares longínquos, onde às vezes já nem se lê tristeza, apenas a morte amorfa de quem não espera nada de bom. Naqueles corpos pequeninos vêem-se os adultos que talvez venham a ser: adultos violentos, revoltados, capazes de matar (n)a sociedade que lhes tirou a vida sem os matar.

Lembrei-me daquele bebé gordo na cruz, que brincava com as mãozinhas, alheio à dor que o esperava. Se Cristo tivesse sofrido a paixão em criança como teria sido?
E como será o resto da vida destes pequenitos que, se conseguirem sobreviver até à idade adulta, já terão vivido o calvário?